A verdade da mentira, entre factos e opiniões

Para primeiro post num blogue que se quer “verdadeiro”, escolhi uma reflexão sobre a natureza da Internet, dos nossos comportamentos e das “verdades” que circulam.

A Internet permitiu colocar em contacto directo milhões de pessoas e em grande medida qeubrou com os “porteiros” na distribuição de informação. Fenómenos recentes vieram colocá-la no coração de revoluções e movimentos sociais.

Mas quando do que nos é enviado, do que partilhamos, do que “conhecemos” é verdade? Não sei.

A rede das mil mentiras

A mentira será tão antiga quanto a comunicação – ou a palavra. A ampliação dos meios de comunicação interpessoal não vem modificar estruturalmente esta relação. Vernor Vinge, numa das suas obras, amplia o conceito actual da internet para uma web à escala galáctica e que seria conhecida como “A rede das mil mentiras”, em que a verdade era abafada pelo ruido da mentira. Como confiar no muito que lemos?

E aqui ficam um exemplo:

Salários escandalosos – Nota: por incrível que possa parecer, os valores que se seguem são os ordenados mensais destes senhores:

Fernando Pinto (TAP) 420.000,00 Eur.
Faria de Oliveira (CGD): 371.000,00
Henrique Granadeiro (PT) 365.000,00
Guilherme Costa (RTP): 250.040,00
Vítor Constâncio (Banco de Portugal) 249.448,00
Fernando Nogueira (ISP, Instituto dos Seguros de Portugal) 247.938,00 (este não é o ex-PSD que se encontra em Angola)
Carlos Tavares (CMVM): 245.552,00,00
Vítor Santos (ERSE, entidade reguladora da energia) 233.857,00
Amado da Silva (Anacom; ex-chefe de gabinete de Sócrates): 224.000,00
Mata da Costa (presidente dos CTT): 200.200,00
Pedro Serra (Águas de Portugal): 126.686,00
António Oliveira Fonseca (Metro do Porto): 96.507,00
José Plácido Reis (Parpública) 134.197,00
Guilhermino Rodrigues (ANA): 133.000,00
Afonso Camões (LUSA) 89.299,00
Cardoso dos Reis (CP): 69.110,00
Joaquim Reis (Metro de Lisboa): 66.536,00
Luís Pardal (Refer) 66.536,00
José Manuel Rodrigues (Carris): 58.865,00
Fernanda Meneses (STCP): 58.859,00
.
Total destes 20 suplentes: 3.702.630,00 Euros/mês
51.892.820,00 Eur: Valor do ordenado anual (12 meses + subs Natal + subs férias)
926.657,50 Eur: Média prémios de gestão
52.819.477,50 Euros.

Qualquer pessoa com um mínimo de testa sabe que estes valores não são mensais, o que não impede desta informação se ter espalhado via mail e ter sido publicada como verdadeira em múltiplos blogues. Outro exemplo de “factos” são os despachos que nomearam pessoas ano passado em que estipulavam que receberiam os subsídios de Natal e Férias (na função pública), que tanta indignação “facebookiana” causaram. Sem que as pessoas parassem dois segundinhos para raciocinar e perceber que um despacho de um Secretário de Estado ou de um Ministro não se sobrepõe a uma Lei da república (muito menos a uma lei como a do orçamento).

Mas aparentemente as pessoas desligam o crivo mental quando se deparam com informação que vai de encontro a ideias pré concebidas. Sejam verdade ou sejam mentira.

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3 thoughts on “A verdade da mentira, entre factos e opiniões

  1. luiscorujo diz:

    A Internet e o serviço de democratização do multiacesso remoto à informação fez explodir a produção de conteúdos informativos, está a pôr em causa teorias da da informação e comunicação e a criar novos desafios no âmbito da e práticas e gestão das mesmas.
    Estudos ligados à neurociência e às ciências da educação demonstram uma transformação quase esponencial nos processos mentais e de armenamento de informação – memória.
    As gerações pós surgimento da Internet lidam com a informação de forma diferente dos seus pais. Um menor investimento na retenção de memórias (memorização, ligada tradicionalmente a decorar, técnicas mnemónicas e sabedoria) tem permitido um melhor ajustamento no que respeita ao investimento feito na consulta de diversas fontes de pesquisa. Existindo mais sítios onde buscar e cruzar a informação, o cérebro está a deixar de ser usado para armazenamento de dados e passa a ser usado para armazenamento de metadados, nomeadamente onde ir buscar a informação quando é necessária. Tal processo iniciou-se objectivamente com o surgimento da escrita, sendo que antes dela a retenção do saber, do conhecimento, das tradições do grupo era o papel dos mais velhos, e por isso eram os responsáveis pelo grupo, também derivado da experiência vivida. Eram eles que retinham a memória ancestral, e que teriam que partilhar com a gerações mais novas.De igual forma o valor da palavra dada, da verdade era de suma importância, uma vez que só as testemunhas orais é que existiam. A palavra era poderosa e, portanto, tinha um peso místico e mesmo mágica (“ABRACADABRA e outros esconjuros”).
    A escrita permitiu retirar esse “peso” em favor de castas ou grupos sociais que dominavam a escrita: primeiro os sacerdotes (fase em que a escrita era tão secreta quanto sagrada) e posteriormente os escribas, que dominavam a burocracia dos estados teocrático-militares. A informação passa a estar registada para poder ser acedida posteriormente e também poder ser transmitida sem erros (lapsus linguae). A palavra escrita passa a ter um valor grande: a escrita religiosa (hieróglífica) egípcia, o “Deus de Moisés” que lhe entrega as Tábuas da Lei (Mandamentos), escrito por Ele próprio, até à Ilíada e Odisseia, que “transformam os homens em Heróis e SemiDeuses). O valor do escrito também é apreendido no que se refere à propaganda, publicitando para o futuro a “versão” dos factos ocorridos: a Grécia heróica vence os Persas (como se verifica nas Termópilas) e Roma vence os Cartagineses “que sacrificavam crianças a Moloch” (quando na verdade eram descendentes dos Fenícios e cuja cultura ancestral se pode captar através das descrições do Antigo Testamento nos livros referentes ao reinado de Salomão)
    A Imprensa (sec.XV) vai democratizar a leitura, mas não o acesso à informação, porque os livros eram (e continuam) caros e porque estão limitados ao local e à língua em que se encontram. Mas as pessoas acedem à leitura impressa, a propaganda aumenta e facilmente expõem e espalham a sua opinião, ao ponto de estalarem guerras religiosas, mas ligadas a movimentos sociais que começam a por em causa o poder divino dos reis e o esquema de sociedade tripartida, advogando liberdade e igualdade.
    Actualmente, o volume de informação é tanto quanto o nível de contraditório, o que aumenta a insegurança no conteúdo informativo, por não termos ainda capacidade de avaliar volumes tão grandes informação em tão pouco tempo. A informação é agora uma mercadoria, que se valoriza quando falta informação segura e fidedigna, ou quando há uma inundação de boatos contraditórios. Só uma elite informada é que consegue separar o trigo do joio, mas provavelmente, será essa elite que actualmente atira com informação de pouca qualidade (publicidade enganosa) para o “mercado”.

    • ruibrandao diz:

      Bom, fizeste-me lembrar o que um meu amigo costuma dizer: “um elefante come-se partindo-o às postas” 🙂
      É verdade que a Internet representa a primeira alteração estrutural ao modo de difusão da escrita desde a invenção da imprensa – e esta teve um impacto brutal na sociedade. Em comparação, a televisão e a rádio não afectaram significativamente o pradigma existente.
      No entanto, não tenho a certeza que haja uma transformação exponencial dos processos mentais ou que estruturalmente haja uma incapacidade em lidar com os volumes de informação. É certo que parece ocorrer uma modificação do modo como lemos e tratamos a informação (como tão bem ilustrou Nicholas Carr no seu artigo para The Atlantic – http://www.theatlantic.com/magazine/archive/2008/07/is-google-making-us-stupid/6868/). Mais que metadados, arquivamos “pointers” e referências. E parece certo que os “digital natives” não passa de uma ideia sem qualquer base empírica.
      No entanto, mesmo estando sujeitos a quantidades de informação brutais, a nossa incapacidade de questionar e por em dúvida a fiabilidade da informação que recebemos de fontes muito duvidosas é o que visava realçar. Numa famosa troca de palavras no parlamento inglês, um deputado da oposição terá dito que o governo preparava-se para implementar uma qualquer política (por certo muito funesta para o país ;)), ao que o Ministro respondeu que não era verdade que tal intenção existisse. O deputado voltou à carga indicando como argumento “que vinha nos jornal do dia”, ao que o ministro retorquiu de forma lapidar “também o meu horóscopo, senhor deputado”.
      Nem sequer tenho a certeza que esta troca de palavras tenha ocorrido, mas “se non è vero, è ben trovato”

  2. Rui concordo 100% com a opinião e nem me vou pronunciar sobre a questão dos salários acima apresentados como exemplo para o topico mesmo tendo que ser feito as contas a valores mensais e considerando valores brutos, continua a ser verdade é é um exagero … ups não era para comentar isto :D.

    Quanto ao topico em si cada vez é mais dificil conseguir separar o trigo do joio do que realmente é verdade ou mentira cada utilizador da internet terá que se rodear de alguns cuidados para conseguir perceber o que é real ou o que não, o que é para ser meramente expeculativo ou não mas a questão acima de tudo é que a internet trouxe mais beneficios para trazer a verdade a tona e em epocas como esta é importante que o acesso a essa informação seja feita de uma forma fácil mesmo estando sujeito a exploração facilitada que o meio possa trazer por acréscimo.

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