A Paz, o Pão, Habitação, Saúde, Educação

Durante o Dia da Liberdade, um amigo meu teve a ideia de publicar no seu perfil do Facebook algumas músicas consideradas chave para o imaginário deste período, desde José Barata Moura até Sérgio Godinho. Estas músicas, a maioria com mais de trinta anos, têm recuperado, se não mesmo mantido, a sua atualidade, derivado da desilusão das promessas e esperanças de Abril e da entrada no anteriormente seleto clube da União Europeia.

Não vou cair no politicamente correto, pelo que admito que a mensagem destas músicas deveria ter servido de aviso e plasma o quotidiano nacional, ou pelo menos o que geralmente se opina e perspectiva acerca do país, dos pontos de vista económico, político, social, cultural e das mentalidades.

O grande capital está vivo em Portugal e obriga-nos a pagar cara a eletricidade, os combustíveis, e os juros que demonstram que o dinheiro tem mais valor que a dignidade humana.

Há uma instrumentalização do poder político, por parte do poder económico com base num programa ideológico que menospreza os valores ligados aos direitos sociais.

Nem a demagogia nem a aceitação de que “governar” a favor de quem detém as mais-valias são óbice para que o discurso oficial distorça a realidade e os conceitos de liberdade e democracia.

Verifica-se a depreciação da Sociedade Civil por parte do Estado, que não parece conhecer conceitos como Relações Públicas e Marketing social, em vez de utilizar estas organizações populares como barómetros das áreas em que é preciso actuar (e descobrir qual é a missão do Estado). Fica a sensação que apenas as organizações que não têm origem nos estratos populares é que são tratadas como entidades de direito.

A Liberdade a sério somente existirá quando houver liberdade para mudar e decidir. Mas quem tem a vida parada, quem está à espera para poder alcançar, com qualidade, a paz, pão, habitação, saúde, educação, verifica um futuro envolto em neblina escura. A paz social é atacada pelas restrições induzidas pela austeridade e por certa repressão advinda do discurso policial, em que o cidadão passa a ser desordeiro por fazer valer o direito à indignação. O Pão passa a ser sinónimo da caridadezinha e de marketing, em que campanhas como o ”Zero Desperdício”, tal como afirma José Vitor Malheiros, indicia uma roupagem ideológica que evita falar da fome e do combate à pobreza, alinhando em alternativa com conceitos de produtividade e competitividade, pelo “combate ao desperdício”. A Habitação, a posse de um Lar como símbolo do esforço do trabalho, está a desaparecer, pela mão de bancos, pelos juros, pelo desemprego, e pelas exorbitantes taxas e impostos que se pagam (IMI, anyone?). Prédios e ruas inteiras com placas de imobiliárias. São milhares de casas vazias, enquanto cada vez mais pessoas dormem na rua, ou se acomodam com três ou mais gerações em casas que não têm condições para tantos. A Saúde, tal como a Segurança social, estão a ser encerradas, desmanteladas, em favor de privados que não servem as necessidades da maioria da população, que não tem acesso a ADSE ou seguros de saúde. Ir (sobre/sub?)vivendo com pior qualidade de vida traz certamente poupanças a longo prazo à segurança social, poupanças essas que poderão ser canalizadas para as pensões milionárias já sobejamente conhecidas. A Educação vai sendo entregue aos privados, com a desculpa da fraca eficiência e eficácia do ensino público. A fraca eficiência e eficácia são fruto da instabilidade que existe pelo menos desde meados da década de 80, em que cada reforma da educação conseguiu erodir o respeito pelo professor e o valor da escola como ambiente de acesso à cultura e a ferramentas de ascensão social. Resulta somente na aplicação de teorias educativas como se se estivesse a trabalhar com tubos de ensaio e não com as gerações futuras. Parece-me que o objectivo era transformar a escola pública num pólo de desenvolvimento de gerações de pessoas obtusas, sem pensamento independente e que obedecessem cegamente e de forma barata ao empregador, deixando aos privados a missão da reprodução de valor acrescentado na educação. Aliás, quando os patrões da economia (falar em patrões da Indústria em Portugal ainda me soa risível) dizem que os estudantes, mesmo os do superior, saem mal preparados e que gastam muito tempo a formá-los, deveriam solicitar a abertura de licenciaturas e outros cursos específicos para a sua empresa.

No fundo, a liberdade e a democracia têm que ser conquistadas todos os dias, e não devemos limitar-nos a sonhar, porque o que era seguro para a geração de à quase quarenta anos atrás já não o é para os seus filhos e netos. Ideologias à parte, devem-se educar os futuros cidadãos para saberem melhor dirigir e orientar-se para que a sociedade possa atingir o bem comum.

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3 thoughts on “A Paz, o Pão, Habitação, Saúde, Educação

  1. ruibrandao diz:

    As sementes das “eventuais” faltas de pão e liberdades actuais estão contidas no próprio 25 de Abril. Mas em relação à educação, factor crítico para a mobilidade social e para a liberdade e justiça, não foram só o experimentalismo eduquês mas muito, também e quiçá mais, o resultado de uma classe que trocou respeito por dinheiro e benefícios. E dos políticos com isso coniventes.

  2. Bem a ti só te tenho a dizer Viva o 25 de Abril viva a inspiração do dia da Liberdade vai la vai, bem dito ou melhor bem escrito.

    • luiscorujo diz:

      Falta, quiçá, referir que é um bocado redutor considerar o 25 de Abril (e não falo do PREC, esse sim chorado pelas viúvas de Cunhal [e já agora, pelas beatas do Cónego Melo]) algo que se limita à esquerda.
      Tal como o primado da economia e finança sobre a política e a sociedade não são só apanágio da direita.

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