Abril revisitado

Como é da praxe, “comemorámos” mais um ano sobre o aniversário do 25 de  Abril. Manda a tradição que esta festividade seja assinalada com promessas de renovar os “valores de Abril”, e, de acordo com as circunstâncias e o autor, assinalar o que actualmente corre menos bem, a necessidade de recuperar o espírito da coisa ou afirmar que está tudo bem e/ou que há que ter esperança no futuro.

25 de Abril, 38 anos volvidos…

Se actualmente perguntarmos aos intérpretes da revolução o que ela foi teremos respostas diferentes,  não somente de acordo com as suas ideologias pessoais, mas também de acordo com os papeis que assumiram na sequência do mesmo. E, face a tais circunstâncias, tomo a liberdade de fazer a minha interpretação da coisa (2).

Observando as revoluções portuguesas, parece óbvio que estas ocorrem quando os regimes estão a cair de podre.  Aliás, diria que bastam umas 100 pessoas unidas e com o mesmo objectivo para que em qualquer altura se faça uma revolução em Portugal. Em contrapartida, arranjar 100 pessoas em Portugal com o mesmo fim e sem quintas é que será a verdadeira hercúlea tarefa. A partir das cinco pessoas começarão os problemas.

Assim sendo, o 25 de Abril ocorreu no contexto habitual das revoluções em Portugal. E, honra lhe seja feita, foi profundamente portuguesa nas suas diferentes vertentes.

Terá começado como sendo uma contestação salarial dos militares, num panorama de um país cuja filosofia e regime estavam esgotados face à evolução da humanidade.

Foi um evento marcado pela falta de um projecto nacional alternativo – não existia uma concepção de nação subjacente (como actualmente continuará a não existir – e uma pobreza franciscana em termos intelectuais da maioria dos interpretes. Mas também foram tempos de uma inocência e pureza que mesmo os doutrinados corrompidos não apagaram.

A revolução não foi planeada – haverá alguma que o será? – foi uma sequência de eventos e correntes, com muito desenrascanço à mistura. Olhar para os filmes da época é enternecedor e, ao mesmo tempo, anedótico.

http://www.youtube.com/watch?v=IqU8GRb8VNU&feature=related

Democracia, Paz, pão e liberdade..?

Pedindo desde já desculpa aos puristas, quase que  roubo uma frase partidária como ideologia do povo de Abril. Não coopto a dos ideólogos comunistas pelo simples facto de nunca terem sido parte das bases da revolução.

Abril, 25, trouxe-nos ou formalizou-nos, algo de precioso – a liberdade de podermos nos exprimir livremente – bem como maior justiça social e, claro está, o actual processo democrático e a actual patidocracia vigente. Não eliminou o corportivismo existente (pelo contrário, ficaram sem controlo), entre outras coisas que não fez. Essa tarefa caberia à democracia portuguesa.

Também libertou um certo “opinionismo egualitário” na sociedade portuguesa, e, por alguma razão é conhecido como o “rebentar do esgoto”.

Concluindo uma discussão que muito longa seria, sem Abril não estaríamos aqui. E a obra ultrapassou, de longe, a maioria dos artistas.

Abril hoje

Sendo curto e conciso, passaram 38 anos. Os desafios e problemas actuais são diferentes dos da “geração de Abril” (e em grande parte por esta directamente causados).

As comemorações de Abril entronizaram-se, tornando-se numa espécie de comemoração ritualística que originam anualmente uma breve discussão sobre os “valores de Abril”.

Mas a “Brigada do reumático” continua a aparecer –  com novos (velhos) protagonistas. E com a pobreza ou falta de honestidade intelectual de origem, em nada mitigada – bem pelo contrário – pelo passar do tempo e corrupção do poder. E pela desadequação dos tempos modernos. Continua a impunidade gerada pela falta de memória ou pela falta de coragem.

Como “novidade” recente, temos uma opressão – que de nova e inesperada pouco tem – e cuja face visível é o “mão austera” da Troika. Mas esta é uma mera consequência dos motivos internos subjacentes. E, apesar da “eleição” para o título de maior dos portugueses, sempre prefiro a Troika à volta de uma nova versão do Dr. Salazar.

O futuro: crónica de uma morte anunciada, os valores e desafios de sempre

“Abril” caminha para o mesmo destino temporal dos restantes eventos da humanidade – primeiro a irrelevancia e depois o esquecimento. Esta “aventura” terá sido bem mais bem sucedida que a anterior primeira república, embora sinistramente similar em termos de evolução: ruptura com o regime anterior, celebração e ascensão dos partidos,  corrupção dos votantes, falência do Estado e ditadura sobre a “vontade o povo”. Mas desconfio que a diferença deve-se mais a evoluções externas  que a maiores virtudes internas.

Mas os valores de Abril, que livremente mas não imaginativamente, interpreto como liberdade, igualdade e fraternidade – e, acima de todos, pão – e que precedem Abril, continuarão a existir e a ser importantes. E é bom que as pessoas, nomeadamente os políticos, não se esqueçam disso.

E tenho esperança que os portugueses se lembrem, quer dos motivos e valores que levaram   à necessidade e importância de Abril, quer dos motivos que levaram à sua actual “queda”.

O preço da liberdade é a eterna vigilância.

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4 thoughts on “Abril revisitado

  1. luiscorujo diz:

    A questâo pertinente é, antes de tudo, se o 25 de Abril foi uma revolução. A minha opinião é de se tratou de uma revolta, derivada de um golpe de Estado e que a normalidade foi reposta posteriormente. Se na forma e em alguns regimentos jurídicos aparenta ser uma democracia, também sabemos que não vivemos num Estado de Direito (a lei não toca a todos e a justiça não é cega). Vivemos numa República em que se elegem representantes emanados da plutocracia e de uma oligarquia.
    Como tu dizes, o corporativismo não desapareceu. Pior ainda, as corporações tomaram conta do poder
    Tudo isto para demonstrar que não houve grandes alterações no país, sejam na sociedade, na política, na economia, na cultura e nas mentalidades. Nesse sentido, não se pode considerar que tivesse havido revolução. Houve sim, pessoas que deixaram o imaginário mais rico, mas isso é folklore.

    • ruibrandao diz:

      Foi uma revolução “à portuguesa”, ou seja, “non troppo”. Há também quem diga que uma revolução sem sangue, não é uma revolução (nota: morreram pessoas no 25 de Abril).
      No entanto, se muita coisa ficou na mesma, muita coisa mudou, talvez menos devido e na sequência do 25 de Abril, mas sim do processo de adesão à CEE e a liberalização da comunicação social e integração europeia.
      O que é claro é que os problemas, preocupações e perspectiva do mundo da juventude actual é muito distinta da da geração de Abril.

    • luiscorujo diz:

      Mesmo aceitando os teus argumento, é a minha opinião de que se trata de uma revolta e não de um revolução, mas isso é mais uma questão conceptual, perfeitamente discutível.
      As pessoas a que te referes são as quatro pessoas que foram mortas pela PIDE?

    • ruibrandao diz:

      Sim. Não sei se houve mais mortos – é possível.

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