Trabalho, Século XXI

No dia seguinte ao primeiro de Maio, dia do trabalhador, reflicto sobre uma questão simples: o que é um trabalhador? Alguém que vive do seu trabalho, por certo. O que levanta ainda outra questão – o que é o trabalho?

Juntamente com a terra e o capital, constitui um dos três factores de produção – necessários para produzir bens e serviços . dos modelos da economia clássica. O trabalho é remunerado com o salário, a renda remunera a terra e o lucro o capital. Adicionalmente, correspondem alinhamentos com classes sociais: ao povo o trabalho, ao clero e nobreza a terra, à burguesia e, mais tarde, aos industriais, o capital.

Esta é a visão clássica da economia sobre o factor trabalho, traduz uma imagem mental de fábrica. O trabalho está associado ao movimento e à actividade. E, embora os modelos sejam simplificações da realidade, esta era, na era industrial, uma imagem bastante adequada.

Foi neste contexto que as linhas de produção, produção em série, a fábrica moderna, o sindicalismo, as teorias marxistas e da gestão racional e científica nasceram, bem como as regulações (código de trabalho). Burocracia, sistemas e processos mensuráveis e regulares,  horários (e horas trabalhadas) como referênciais de esforço e pontos de negociação. Turnos, greves, salários horários, progressões por antiguidade, carreiras por patamares pautados pela experiência. Produtividade medida em peças por unidade de tempo.

Um mundo previsível, mecânico, a que correspondia o modelo mental de uma máquina.

 

The clog in the machine

Um relógio. Um mundo “perfeito” e.. extinto (na sua “perfeição”). O pós guerra (mundial, a segunda) veio trazer uma mudança fracturante ao factor trabalho.

Os serviços começaram a ganhar expressão – a natureza dos próprios produtos também se alterou. O mundo regular foi desaparecendo. Mas não foi só o resultado da actividade produtiva que se transformou – o próprio factor trabalho deixou de ser somente acção (actividade) e passou também a ser reflexão (pensamento).

Quando o conhecimento – algo indissociável do indíviduo – começa a ser um factor crítico na actividade económica, ganhando preponderância dentro do factor trabalho, temos uma cisão – ou mesmo um novo factor. E, a “classe trabalhadora” começa igualmente a dividir-se, consoante o grau de fungibilidade das suas competências e actividades. A realidade máquina do mundo industrial não desapareceu – em particular do nosso consciente e dos nossos modelos mentais de análise das empresas – mas temos cada vez mais uma realidade diversa. A ponto de termos estruturas sindicais a defender o capital versus o trabalho 🙂 – a ironia.

Mas esta realidade parece ter evoluído bem mais rapidamente que as nossas estruturas sociais, legais e mentais. Temos uma dissonância entre a máquina representada e a realidade de centenas de milhares de pessoas – trabalhadores que conhecem – quer queiram quer não queiram – uma realidade mais rica, flexível, precária e instável, com mais oportunidades e desafios que o mundo tradicional com o qual convive.

Essa diferença de realidades e a incapacidade – ou falta de vontade – em mudar os paradigmas existentes explica porque o “discurso da cartilha” soa a “dinaussáurico” e, apesar da crise, não anima as pessoas. Porque apesar do desejo de voltar a um mundo mais simples de muito nós – principalmente por parte dos “sem terra modernos” – a caixa de pandora está aberta.

A questão fica – como criar equilíbrios sociais e enquadramentos legais e regulatórios adequados (produtivos, justos e flexíveis) num mundo em que, cem anos após o “trabalhadores do mundo, uni-vos”, temos os proletários como minoria e o trabalho como a parte fraca na relação com o capital…

 

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2 thoughts on “Trabalho, Século XXI

  1. luiscorujo diz:

    Sociedade de Ordens e o léxico marxista são pobres para explicar a questão. A primeira já no século XII não passava de propaganda forçada até a Rev. Francesa, derivada revolução agricola e da expansão do comércio em cidades do corredor Norte de Itália-Feiras da Champagne-Flandres, e mais tarde Hansa (cft. Duby – As três ordens ou o imaginário do feudalismo). Era uma hierarquização que nada tinha a ver com questões económicas, mas de dignidade. Existiam elementos do nobres ricos e nobres pobres, ricos cardeais e párocos andrajosos, e até povo mais ricos que reis, que emprestavam a nobres e reis. Não eram a riqueza pela riqueza que perseguiam (como sucede na nossa sociedade), mas antes a riqueza como veículo de obtenção de dignidade. Por alguma razão, muitas famílias de comerciantes, após serem nobilitados largavam o “negócio por ser coisa vil”. Quanto à segunda, uma tentativa de explicação da Sociedade Industrial, desta vez pela dialética de classes ligadas à sua relação com os meios de produção. Esta teoria, apesar de ter dado origem ao estruturalismo, passou de ciência a ideologia e de ideologia a teologia. Mesmo pegando nos três factores de estratificação de Weber, riqueza, prestígio e poder, não conseguimos aludir à realidade pós-industrial. Os funcionalistas contemporâneos, como Luhmann, estão associado tecnicamente À justificação do neoliberalismo, e acrescentam aos factores o estilo de vida, a instrução e a educação, fonte da origem da classe média e dos creativos culturais.
    Com a crise internacional, começam a surgir estudos neomarxista e neoweberianos que enfatizam que a posição socio-economica pode determinar o tipo e qualidade de educação recebida (as escolas onde entra), o tipo de trabalho (os empregos disponíveis para a pessoa, com quem se casa, a saúde e alimentação (esperança de vida derivada dos cuidados médicos e ao tipo de alimentação a que pode aceder), e o tratamento pela autoridade e justiça (como se constanta pela discriminação exercida pelos agentes da autoridade e pelos tribunais (neste caso, os crimes de colarinho branco que são realmente julgados e a diferenciação de celas/prisões).

    Nota à parte: considero ainda a existência de proletariado intelectual, ou mesmo de prostituição intelectual, principalmente em sociedades não meritocrática, como é a portuguesa.

    • ruibrandao diz:

      Nem tudo é o que parece. E, sim, por exemplo, não existia uma homogeneidade de recursos e posições nas classes do “Ancien Régime” (o que. aliás, creio ser a questão central dos Estados Gerais de 1789).

      Mas mais do que a ligação histórica entre os factores, é o modelo mental do mundo e da produção empresa que está a ser abordado e o seu reflexo no enquadramento jurídico institucional do Portugal corrente.

      Abraço

      P.S. – existe um “pseudo erro” no texto – é de propósito 😉

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