Ser empreendedor pelo Primeiro-ministro

Mais uma semana quente para o País em pleno inicio da “Primavera Global” com afirmações tempestuosas do nosso Primeiro-ministro. Segundo Marcelo Rebelo de Sousa o PM disse o que queria dizer não disse foi como deveria ter dito.

Mas no fim ficaram apenas as palavras:

“a cultura média é de aversão ao risco”

O Sr. Primeiro Ministro está enganado, o País esta cheio de adeptos de risco como mostram as estatísticas em que o numero de criação de microempresas em Portugal tem crescido relativamente a anos anteriores, ao contrario das PME’s. Infelizmente esse crescimento é propulsionado pelo motivo errado, ser empreendedor à força é a única forma que muitos PORTUGUESES encontram para combater a sua situação de desemprego.

“preferem ser trabalhadores por conta de outrem do que empreendedores”

Admito que após esta expressão a primeira coisa que me veio a cabeça foi, o Primeiro-ministro trabalha por contra de outrem. Afinal de contas o Sr. Primeiro-ministro trabalha para uma empresa chamada PORTUGAL detida por mais de 10 milhões de accionistas, que a semelhança duma qualquer S.A. tem pouco ou nenhum poder de decisão, deixando o sucesso e o insucesso a mercê de uma administração que se espera que seja sempre favorável aos interesses dos accionistas. Por outro lado o PM esquece-se que se todos nós nos lembrarmos de sermos “empreendedores” numa economia de produção industrial ou mesmo prestação de serviços precisamos de operários/trabalhadores, e dos bons, para que seja possível produzir. É que numa linha de produção de um qualquer produto se todos forem “empreendedores” provavelmente estarão todos muito ocupados a tentar vender aquilo que ainda não produziram, depois vão estar ocupados a tentar receber dos clientes aquilo que venderam para poder cumprir com os impostos que o País tem em vigor, principalmente aqueles que são baseados no que se vai vender, mas que se paga antes disso acontecer como o “Imposto Especial por Conta” ou mesmo o “IVA” daquela venda que ainda não foi recebida só porque esse imposto é pago pela factura e não pelo recibo. Tem uma coisa boa se formos todos empreendedores não temos que estar preocupados em pagar salários a mais ninguém além de nós próprios, o que acaba até na realidade por facilitar muito as coisas afinal de contas até podemos vender mais barato que a concorrência porque afinal de contas só precisamos de pagar um ordenado.

“o sucesso também se faz com o insucesso, ninguém aprende a andar sem cair”

Descobri que o PM lê os mesmos livros que eu leio e também descobri que deve conhecer a minha mãe porque ela dizia-me exactamente a mesma coisa quando eu era bebé e tinha o cu pesado das fraldas, “sim porque eu sou do tempo em que ainda se usavam fraldas de pano, e quanto tentava andar e não tinha onde me agarrar la ia lamber o chão, a sorte eram as fraldas que absorviam a queda”. Mas a questão que se coloca por trás desta afirmação dita por quem o fez é, o que é que o Governo está a fazer para ajudar as pessoas que têm insucesso e que caem ao aprender a andar?

“Despedir-se ou ser despedido não tem de ser um estigma, tem de representar também uma oportunidade para mudar de vida, tem de representar uma livre escolha também, uma mobilidade da própria sociedade”

O que realmente aqui matou completamente a ideia foi misturar “despedir-se ou ser despedido”. Concordo com o PM quando o mesmo afirma que estar desempregado não tem de ser um estigma e que temos é que levantar a cabeça e ir a luta. Mas o PM esqueceu-se que quem se despede tem três razões apenas, ou porque está a ser explorado e quer tentar angariar melhores condições ou porque tem perspectivas de uma nova carreira ou então decidiu seguir uma carreira de “empreendedor”, qualquer uma delas contraria exactamente aquilo que o PM diz em que existe uma aversão ao risco. Quem se despede está a arriscar por melhor, não é de certeza para viver do subsídio a longo prazo do desemprego. Foi com “quem é despedido” que o PM “faltou ao respeito” segundo a versão da oposição. É que quem é despedido não se é nem se estigmatiza, apenas foi condicionado a uma situação ao qual não teve controlo e agora não consegue arranjar outra colocação porque SIMPLESMENTE NÃO EXISTE EMPREGO PARA TODA A GENTE. Desculpem as maiúsculas mas afinal de contas o blog chama-se GRITAR Palavras. Por outro lado os despedidos mesmo que tenham a veia de “Empreendedor”, hoje veem-se confrontados com realidades que não lhes permitem a coragem de avançar e se por azar falarem com algum “empreendedor” já no activo dificilmente o vão fazer quando souberem o peso da carga fiscal a que vão estar submetidos.

“precisamos de introduzir maior dinamismo e uma cultura de risco e responsabilidade”

Precisamos quem? Nós ou o estado, aqui confesso que fiquei um bocado baralhado, mas acho que aquilo foi um momento de pensamento em voz alta, estaria de certo a falar sobre a empresa que o PM gere chamada PORTUGAL

Obviamente que após e perante tamanha coragem de afirmar tais declarações o PM salientou quando confrontado pelos jornalistas:

“Não sei se foi mal interpretado ou se quiseram interpretar assim. Eu acho que quiseram interpretar assim”.

Eu também queria ganhar o EuroMilhões mas esta semana esqueci-me de ir registar o boletim, andava preocupado em ser “empreendedor” por isso apenas fiquei pela vontade de querer ganhar o EuroMilhões.

Para finalizar uma mensagem ao Sr. Primeiro-ministro que ele nunca irá ler.

“Sr. Primeiro-ministro está a precisar de sair mais á rua e falar com os seus compatriotas, até mesmo com aqueles que colaboraram em o colocar na posição que está, com as afirmações que fez e até dando o benefício da dúvida que realmente o tenha feito com a melhor das intenções. Mas definitivamente está a precisar de tomar um banho de realidade sobre quem são os PORTUGUESES e em que condições é que as políticas do actual governo estão a colocar as pessoas e as empresas. Afirmações como as que fez são insultuosas para quem anda diariamente a tentar dar o melhor que pode e que sabe, chame-lhe empreendedorismo ou outra coisa qualquer mas definitivamente está a precisar de conhecer os outros 99% de accionistas desta empresa que se chama PORTUGAL.”

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5 thoughts on “Ser empreendedor pelo Primeiro-ministro

  1. ruibrandao diz:

    Mas infelizmente ele tem razão em relação à atitude dos portugueses face ao risco. Claro que se exprimiu particularmente mal no que aos desempregados diz respeito.

    Portugal é um país com uma tremenda aversão ao risco – o que não implica que não haja (muitas) pessoas que invistam e corram riscos, criando emprego e gerando riqueza.

    Mas o português “médio” – ou a cultura portuguesa – é extremamente aversa ao risco, vê no Estado (e em qualquer entidade que supostamente tenha mais riqueza) um papel garantista. Pode-se ver isso nos estudos internacionais (http://geert-hofstede.com/portugal.html), pode-se ver isso no codex legal (lei das rendas, por exemplo), e pode-se ver isso na maneira como os portugueses olham para o sucesso e o lucro.

    Neste contexto, transformar um desempregado em empresário não é nada linear, apesar dos casos de sucesso.

    Já a política do governo é outra questão, com masi capítulos do que cabe num comentário 😉

  2. […] seguimento do post de ontem sobre as declarações do Primeiro-ministro Passos Coelho num evento sobre empreendedo… ao qual vim criticar o que foi dito sobre o que realmente se queria dizer, hoje venho fazer o […]

  3. luiscorujo diz:

    A questão é mesmo pragmatismo. O próprio Nicolau Santos usa a palavra fundamentalismo para caracterizar a actuação do governo. E enquanto os outros partidos mantêm os seus fundamentalismos sectaristas, a realidade do desespero, da angústia, da espera, do favoritismo, corrupção e da desigualdade bloqueia a vida dos portugueses, que além de acionistas, são trabalhadores e clientes. Merecem transparência, celeridade e melhores serviços e produtos mais duradouros.

  4. luiscorujo diz:

    Muito bom! Achei espetacular!
    Pena é que a mensagem final caia em saco roto. Ele já deu provas que não houve quem confronta o chorrilho de ideias feitas com lhe empranharam os dois dedos de testa. Este senhor nunca foi empreendedor ou teve que correr riscos. O padrinho Ângelo abriu-lhe todas as portas. Quero que o despeçam e que não lhe deixem ser administrador ou deter qualquer cargo de direção e que não lhe permitam dar aulas seja no público, privado ou cooperativo. Aí sim, ele poderia provar do seu veneno e saber o valor do mérito e do risco.

    • Luís a questão que me levou a escrever este post é porque realmente não concordo com as politicas que estão a ser seguidas e fico danado com estes discursos de cima para baixo sem conhecimento de causa da realidade que este povo está a sofrer na pele diariamente. Mas ao mesmo tempo não se enganem aqueles que achem que qualquer outro partido actualmente e que vieram vociferar contras as afirmações fariam melhor. Dando uma no cravo e outra na ferradura que fique escrito que não queria estar na pele do nosso primeiro-ministro mas estando ele onde está e estando a acontecer aquilo que está a acontecer é preciso ter muito cuidado no pragmatismo daquilo que se diz quando se está a falar de cima para baixo.

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