O terapeuta versus a distopia da realidade

Hoje, tal como ontem, passei a noite em claro, e por isso peço desculpa às pessoas que calorosamente assistem e participam na formação que estou a dar. As insónias e as dores de cabeça físicas são uma constante marca na minha vida e de qualquer um que sobrevive à base de biscates incertos, pagos a recibo verde. No meio desta distopia tornada realidade, surgiram na semana passada dois terapeutas, de seu nome Pedro Passos e Vitor Louçã.  Do último, o menos falado, citou um artigo científico em que referia sensivelmente que a situação de desemprego deixa marcas vincadas que afectam a vida de quem o sofre. Chamemos a este o terapeuta académico. O primeiro, limitou-se a um soundbyte, daquelas citações de compêndio de psicologia, mas completamente descontextualizada: “estar desempregado não pode ser um sinal negativo”, que “despedir-se ou ser despedido não tem de ser um estigma” e que “tem de representar também uma oportunidade para mudar de vida”.
Oportunidade? De acordo com as notícias veiculadas anteontem, a taxa de desemprego nunca esteve tão alta em Portugal. Na verdade, se usarmos o conversor “realidade–>Passos Coelho” (do meu amigo Carlos), isto equivale a 820 000 oportunidades só em Portugal. A península Ibérica torna- se assim a Terra das oportunidades.
Ora vejamos:
Em Portugal não há aversão ao risco, pois segundo a OCDE é o terceiro país da Europa com mais autoemprego, com uma taxa de 23,5%, logo a seguir à Grécia e Itália. Os últimos da lista da  OCDE são os EUA e a Escandinávia. Em que mundo vive Passos Coelho?
O período de sensivelmente 3 anos e meio em que estive desempregado foi um período difícil e não somente por não ter trabalho. Faço minhas as palavras de José Vitor Malheiros, quando diz que um desempregado “é uma pessoa cuja rede social se desmoronou, cujo sentimento de utilidade social desapareceu, cujo saber e cuja competência deixou de ter valor, cuja auto-estima se esfumou, cuja identidade se desagrega, cuja vida parece de repente não só não ter valor mas ter-se até transformado num fardo para todos.” Este sentimento não desapareceu, porque, reforço, não tenho trabalho nem salário certo, nem sequer direitos laborais. “E tudo isso, em grande medida, devido aos Passos Coelhos deste mundo, que fazem a sua carreira política a estigmatizar os “parasitas subsídiodependentes” que vivem à conta do Estado.”, sejam eles ou não realmente subsídiodependentes
Falar de empreendedorismo quando a política seguida estrangula o mercado interno e faz com que não exista crédito bancário é risível. Não lê as estatísticas sobre o encerramento de empresas? Quererá ele que a “cultura de risco” seja o endividamento dos desempregados para lançar negócios que não vão vingar?
 Já se sabia que ele era político, já se sabia que ele era neoliberal, já se sabia que era mentiroso, já se sabia que ele vivia num mundo à parte. O que eu não sabia é que ele era psicoterapeuta.
Vê-se já a léguas que a terapêutica não resulta porque é irrealista e prejudicial.
Ao menos o seu colega Gaspar socorre-se de artigos científicos.

Que se saiba nenhum deles está inscrito na Ordem dos Psicólogos ou na Ordem dos Médicos, pelo que deveriam ser multados e impedidos de dar consultas, até produzirem prova de formação específica e estágio.

 

Só para relembrar

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2 thoughts on “O terapeuta versus a distopia da realidade

  1. Ainda esta semana em conversa com um antigo professor veio a baila o uso desmedido da palavra empreendedorismo, mas compreende-se o porque, então vejam vem as vantagens.

    Se o “empreendedor” está pelo fundo do desemprego porque entretanto passou a fazer parte da lista dos que “têm uma nova oportunidade de mudar de vida” automaticamente deixa de ser um peso financeiro para o estado. Se estiver inscrito no centro de emprego mesmo sem qualquer tipo de pagamento como é o caso dos desempregados de longa duração melhora as estatisticas do desemprego no país.

    Depois do “empreendedor” aproveitar a oportunidade de mudar de vida porque outra solução não encontrou vai ali andar alguns anos a acumular dividas. Mas que não podem ser ao estado, ou caso sejam rapidamente duplicam, dado que eu acho que existem “agiotas” no mercado que levam taxas mais baixas por incumprimento.

    Assim e baseado na estatistica de que a taxa de sucesso das empresas criadas pelo motivo do auto-emprego tem uma % de sucesso muito inferior a 50% quer seja pela dificuldade de tesouraria que qualquer empresa hoje tem pelo pagamento antecipado de impostos não recebidos (pagamento pela factura e não pelo recibo) quer pela carga excessiva de impostos (quer pelos reais quer pelos que são baseados em previsões de virem a acontecer) a empresa terá uma longevidade curta.

    Mas no fim o problema está resolvido pois o “empreendedor” não pode pedir fundo de desemprego porque é “empresário” assim afinal o incentivo ao empreeendedorismo em massa até faz sentido afinal de contas só estamos a colaborar para balançar as contas publicas e a incapacidade daqui a alguns anos da SS em garantir reformas e pensões.

  2. ruibrandao diz:

    As taxas de autoemprego estão pouco relacionadas com aversão ao risco (ou falta dela). Aliás, as próprias estatíticas que referes poderiam servir de prova em contrário.

    Seja como for, Portugal tem uma elevada taxa de autoemprego por questões de dualismo no mercado laboral, não pela existência de uma vasta quantidade de pessoas que se quer sentir como responsável pelo próprio emprego.

    Quem não tem aversão ao risco tem elevadas taxas de criação de empresas e negócios.

    E os portugueses têm uma brutal aversão ao risco – aliás, preferem passar fome a mudar, como esta crise e (poucas) mudanças têm revelado. Ou pelo menos existe uma significativa camada de portugueses assim. Que vêm o Estado como referência a suave abraço.

    Mas tal como referi em comentário sobre a nada feliz frase do PPC, muitos dos desempregados que se estão tornar em empresáriso não se vão dar bem. Mesmo nos EUA, a taxa de sobrevivência de novas empresas (5 anos) é abaixo de 50% – e cá será muito menor. Muito também porque o Estado asfixia as mesmas, quer via regulações, via impostos e via lentidão (experimentem criar uma pequena empresa exportadora e depois vejam o que necessitam de esperar para receber o IVA).

    Mais que subsídios, é necessário menos peso e presença. Que não nos chateie.

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