Venalidade com bolos só pode dar numa coisa

 

No decurso de um biscate que tenho feito, vou descobrindo coisas interessantes acerca da administração na França pré-revolucionária e verifico algumas semelhanças com o sistema político português actual.

Pode ter piada o facto de vermos que um Duque e Par de França pagar para ter o cargo de…porteiro! Mas se naquela altura, os cargos públicos eram
-alugados
-comprados
-arrematados em leilão,
-acumulados na mesma pessoa
-passados de pai para filho
-sem controlo de abusos
-sem verificação das reais capacidades e competências dos “proprietários dos cargos” (expressão utilizada naquele tempo)
Bastou assim a falta de liquidez, a crise económica e a fome, para espoletar uma revolta num país que era o farol da civilização ocidental. E essa revolta incendiou todo o país e levou à Revolução, porque, apesar do que a Marie Antoinette propunha, não havia bolo que chegasse para todos.
Quando
-os boys são integrados no aparelho de estado, via despacho publicado no Diário da República,
-um ministro escolhe, ou influencia a escolha, de uma empresa com a qual tem relações de amizade
– quando os lobistas a soldo das empresas e agências comerciais, são designados para cargos e tomadas de decisão, num quadro de amplo conflito de interesse entre o público, o Estado e os cidadão, e os interesses dessas empresas
-quando curiosamente  o genro do presidente se torna proprietário de um equipamento que, “por ser rentável, não podia ser público”, e que fez parte de um projecto por ele aprovado enquanto chefe de Governo
-quem, nesse âmbito, faz a avaliação das declarações de interesses dos políticos eleitos (e também o Vitalino Canas), diz não haver qualquer conflito entre ser político decisor ou legislador e, ao mesmo tempo, trabalhar em empresas com claros interesses que não favorecem o bem comum, referindo que os padrões morais dessas pessoas não permitem qualquer decisão que entre em conflito com o interesse público.
– esses mesmos avaliadores, inversamente ao referido anteriormente, consideram existir um conflito de interesses quando uma deputada é professora do ensino secundário público
– se diz, numa estratégia de diabolização, que os funcionários públicos têm salários mais altos, mas quando na verdade os dirigentes dessa administração pública recebem uma ínfima parte do que recebem os detentores de cargos equivalentes no sector privado
-os “estadistas” portugueses, a troco, de “emprego futuro”, ou mesmo luvas,  facilitam projectos de empresas, redesenhando a legislação, etc. quando tal não contribui para o bem comum, podendo ser mesmo prejudicial ao país (barragens e Património da UNESCO, anyone?)
– os “preguiçosos e relaxados” que vivem à custa de “farto dinheiro” RSI e fundo de desemprego são obrigados a terem a vida privada devassada, a não terem sigilo bancário, a fazerem prova de que são doentes e pobres e,  finalmente, trabalharem de graça
 -as grandes empresas, escolas, hospitais, fundações, Lares e bancos privados que recebem milhões de Euros de subsídios, pagos com os nossos impostos, fogem à investigação  e não são obrigados à transparência, a prestar contas e apoiarem o bem comum.
– se pregam falsos moralismo por quem nunca trabalhou a sério na vida e ascendeu como boy ou afilhado,
– o poder central vai abandonando o interior e desaparecendo do país real, desistindo das populações que não vivem perto do vortéx da capital, encerrando tribunais, escolas, centros de saúde, esquadras
-se considera que a Constituição ou os acórdãos emanados do Tribunal Constitucional constituem problemas para o país,
– se considera que as eleições se podem lixar, porque importa salvar o país, mesmo que isso signifique lixar os eleitores, os cidadãos que votem ( e o que é o país senão os cidadãos?) ( e caro Vasco Pulido Valente, o seu “coelho” vai cair porque o PSD, desde que deixou de ser SD, (assim como qualquer partido do Bloco Central  e do Arco da Governação) nunca deixou de ser uma federação de câmaras ou agências de lobby locais que escolhem um boy em holocausto para os presidir e os levar ao governo. E toda a gente sabe como acabam os Holocaustos.)
… o país perde em Democracia, Igualdade, Transparência, e deixa de ser um verdadeiro Estado de Direito sem poderes descricionários.
Foram sendo implementadas medidas desde a nossa entrada na CEE, à força e sem ter em conta as especificidades portuguesas, como se se quisesse apagar o país real e criar algo artificial mas sem cabimento na mentalidade colectiva. Tudo fruto de “Uma visão para o futuro”. Agora o resultado está à vista. Tal como a França Absolutista,  sem luz ao fundo do túnel, estão criadas as condições para uma revolta, porque este modelo está gasto o bolo não está a ser condignamente repartido.
A menos que tenham conseguido apagar o país real, ou atenuá-lo com futebol, telenovelas (e daqui a pouco tudo isto será em canal fechado), espera-se uma Revolução.
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2 thoughts on “Venalidade com bolos só pode dar numa coisa

  1. ruibrandao diz:

    Caro Luís,

    Pelo que tenho na memória, a França pré revolução estava longe de ser um país deprimido economicamente. Bem pelo contrário. A economia estava vibrante e rica, mas o Estado, esse, estava falido.
    A outra precisão – embora ache que usaste como artifício “literário” não de exactidão históriaca, é que a Maria Antonieta nunca terá dito a célebre frase do “não têm pão? Comam brioches”.
    Nós, ao contrário de França de então, estamos falidos. E como se diz, quando não h+a dinheiro não há revoluções, mas revoltas.

    • luiscorujo diz:

      De acordo com as teorias, e coloco desde já a ressalva que a última vez que estudei essa questão foi à 12 anos atrás, a Revolução Francesa ocorre derivada de uma crise financeira causada pelo apoio à Guerra da Independência Americana, que levou a um aumento de impostos ao Terceiro Estado, e o reforço dos direitos feudais por parte dos grupos privilegiados, que também tinham dificuldades de aumentar rendimentos. A juntar a isto, a existência de anos de más colheitas a complicar a situação dos grupos populares. Entretanto Necker, e depois o próprio Luis XVI tentam efectuar uma reforma fiscal para sarar a situação, mas acaba por ser forçado a convocar os Estados Gerais.
      De facto utilizei o artifício literário, porque a frase não é dela, mas uma citação de Rousseau relativa a uma “princesa”.
      No último ponto, não concordo. O Estado estava endividado e endividou-se mais para salvar os bancos. E agora os cidadãos e as empresas pagam a dívida. Tal como a França. Mas vai chegar um momento em que a economia irá afundar, e aí não haverão Estados Gerais que salvem o regime. O mais correto seria dizer que quando não há dinheiro não há reformas. Quanto a revoluções, a minha opinião é que a última a haver em Portugal foi entre 1820 e 1834. O resto são revoltas

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