Monthly Archives: Outubro 2012

Ainda sobre o caso de Aquila…

Aproveitando o texto do meu colega bloguista:
Epistemologicamente é preciso ver que a Ciência não explica tudo. Não pode! Ela está limitada aos limites da percepção humana.
Em Itália, seis sismólogos foram condenados por não conseguirem prever o desastre do terramoto em Aquila. Face à aflição, houve que encontrar bodes expiatórios… muitas vezes acontece, infelizmente, em situações que o saber, a Ciência, não pode ou não consegue dar resposta.

Cá em portugal não. A culpa morre solteira mesmo quando toda a gente sabe, e muitas vezes se prova judicialmente, que as pessoas e as instituições cometeram erros, mesmo na inação:
-são os casos de corrupção e sacos azuis
-são os conflitos de interesses
-são as pontes que caem porque não têm manutenção, as empresas de extração de areias que lhes retiram aquela que sustenta os pilares, e finalmente os videos das filmagens das peritagens que desaparecem
-são os erros clínicos, as compressas esquecidas, as amputações erradas, as cegueiras causadas por erros de embalagem, de que nunca são assacadas responsabilidades profissionais, civeis e criminais.
-são os documentos que desaparecem ou são roubados de carros, logo na altura em que se investiga a corrupção pela compra de submarinos
-são os autarcas corruptos, que por muito condenados que sejam, nunca é ordenada a sua captura
-é o enriquecimento ilícito que passa a ser lícito se pagar uma taxa
-são os processos arquivados pela demora nos tribunais, fazendo com que o Estado seja conivente com a impunidade.
-é o magistrado supremo do país saber que uma instituição bancária criada por pessoas que eram seus colegas e ministros da sua presidência do conselho de ministros, e da qual chegou a deter ações, funcionava como plataforma de lavagem de dinheiro, e que essa instituição bancária, por ter sido mal administrada, tem as dívidas que acumulou a serem pagas pelos contribuintes deste país, enquanto os culpados, longe de serem incriminados, fugiram e auferem majestáticas pensões enquanto afirmam que foram os portugueses (os particulares, trabalhadores, a classe média) que causaram essa e outras dívidas.

De quem é a culpa? Quem deve prestar contas? Quem é que tem que responsabilizar? Quem é que tem que ser responsabilizado?

A previsão do futuro

Os economistas têm dois problemas:

  • Conseguem ver com muito mais clareza as complicações do que as eventuais soluções. São pessimistas por profissão
  • Normalmente têm razão. Falham – ou não conseguem prever  – é em que altura é que tal sucederá

Se os economistas se limitassem a não perceber nada de nada ou genericamente tratar de coisas que são secundárias (tipo os filólogos ou os sociólogos), não havia grande problema – bastava ignorá-los. O problema é que às vezes têm razão – difícil é perceber antecipadamente quando. A posteriori é fácil.

Mas não é a única disciplina em que tal é complicado. A geologia – especificamente a sismologia – também não é muito dada a previsões acertadas. Existem probabilidades estatísiticas e séries temporais. Mas ser preciso é muito complicado.

Mas tal não impediu um tribunal italiano de condenar um grupo de cientistas à prisão, aparentemente por não terem previsto um sismo. Mesmo sem saber mais do processo – ao leve sabor da “pena” – é um absurdo. Até pensei que fosse em sítios mais obscurantistas em que o reino divino e o material são mais “próximos”. Tipo Irão ou Coreia do Norte. Mas não, foi em Itália.

Mas os sismologistas em Itália têm sempre uma solução: recomendar diariamente a evacuação integral do território, pois podem sempre ocorrer sismos.

Conversas de balneário

Quadro superior, 50 anos, empregado de há longa data numa empresa “sólida”, desabafa: “estou a pensar e ver  se para o ano consigo ir trabalhar para a Costa Rica – “. Isto apesar de ter nascido recentemente o seu primeiro neto e os quatro filhos (essencialmente “criados”) que por cá residem.

Portugal arrisca-se a rapidamente se tornar num país onde só ficam os reformados e funcionários públicos (e mesmo estes…).

E quem pagará as contas?

A “Merkl” não parece disposta a isso.

O que cai do céu não é chuva

O que cai do céu não é chuva!
Acreditem! O que está a cair é uma nova tranche, como prémio do novo Orçamento. É uma tranche de mais angústia, mais sofrimento, mais dissensão. O que é uma tranche, senão um bocado? Um bocado mais de fome, de pobreza, de fome, de frio, de inveja, de egoísmo, de quebra de laços, de temor, de ruína, de indignação, de violência física e psicológica.
O que cai do céu é a impossibilidade de fuga, uma falta de forças para sonhar, para imaginar uma saída, uma alternativa, uma melhor vida.
O que cai do céu é mais do mesmo, para ficar tudo na mesma, os mesmos de sempre no topo e os de baixo a arcar com o peso da realidade que teima em não se conter e coadunar com equações, cálculos, tabelas e apresentações.
O que cai do céu é a Nova Ordem Mundial e estão-nos a servi-la neste momento, mais tarde serão os outros a serem servidos. E ela bastará para todos e sobejará, até que o sonho se transforme em querer e o querer em fazer. Mas para isso é preciso sonhar… E os sonhos não estão a cair do céu.

Tudo isto é demais

Esta semana foi demais. As empresas dos governantes, os carros da oposição, o neoliberalimo-tornado-neoestalinismo-económico, mais taxas e impostos. E para acabar em beleza “O PCP incita à violência”.
Mas tal como disse o Nuno Markl, não é preciso o PCP ou qualquer outro partido falar para nós termos os nervos à flor da pele. As vossas atitudes sobranceiras, as vossas decisões, a vossa incompetência académica, política, económica e social, a vossa cupidez, as vossas teias de interesses, as vossas mentiras, tudo isto está a transformar resignados em indignados, e no futuro em violentos. É por isso que os membros do governo aumentam a segurança pessoal, e as cerimónias são feitas à porta fechada! Têm medo, pois claro. A porcaria que fazem é tanta que não se percebe como é que ainda não se asfixiaram com o cheiro.
Como já se provou vivermos no Estado de Excepção (cft. Giorgio Agamben) onde o espírito da Constituição é manipulada pelo governo, e o “Estado de Direito” protege os ricos e é musculado contra os pobres e os indefesos, nenhum direito, nenhuma réstia de país, nenhuma segurança resta para a classe média. Tudo isto se confunde com o contrariar o imobilismo. Que bom, podermos sair de uma Democracia com um Estado Social imperfeitos, mas construídos ao longo de dezenas de anos por um povo que acreditava num futuro melhor, e que era apregoado pelos dirigentes e elites do país. Entramos agora numa Plutocracia com um Estado neofeudal ou neoestalinista de apropriação de rendimentos vindos do trabalho e dos sectores produtivos.
É para lutar contra o imobilismo que os impostos sobem mais de 200%, que os preços dos bens aumentam, que o desemprego aumenta, que se destrói a economia. É à economia de subsistência que nos reduzem.
Podem dizer que são lamentos e que tristezas não pagam dívidas. Mas como é que alguém pode achar que isto é positivo? Recebem alguma tença? Vivem à custa de alguém? Acordem! A maioria das pessoas não sabe como vai pagar a renda do tecto que lhe cobre a cabeça, comprar a alimentação para os filhos e a medicação dos pais! São estas pessoas que vivem acima das suas possibilidades? Sou eu, a receber a recibos verdes dos parcos e incertos biscates que vou conseguindo arranjar para pagar fixamente a segurança social todos os meses e o pagamento especial por conta, sem carro, casa ou outro bem valioso?
É o discurso diabolizador e populista de encontrar um bode expiatório interno, quando são os que se tornaram governantes e gestores de empresas que gastaram demais, gastaram mal e metem ao bolso dinheiro a mais, pelas privatizações, nomeações e legislações imorais. Ah! Anna Arendt, vem cá a Portugal e ri-te, porque os regimes democráticos também funcionam utilizando as mesmas estratégias dos totalitarismos. Vais achar isto demais!